quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Vigésimo segundo dia ou "A crise"

Cada dia estão mais evidentes os diferentes corpos, os distintos pensamentos, as diversas formas de enxergar o mundo. Hoje, exaustos, bloqueamos. O trabalho intenso e árduo de levantar materiais, encontrar caminhos que se cruzem, afinar ideias, respeitar e ponderar as opiniões nos levou a um momento de parada, reflexão e discussão. Precisamos respirar para seguir. Trabalhamos pela manhã realizando as frases de movimento e experimentando o roteiro que organizamos ontem. Depois discutimos sobre qual a ideia de cada um para "Post-it body", título que escolhemos para o trabalho, tendo como base os materiais levantados e os vídeos que assistimos diariamente do que temos produzido. Das respostas produzidas, identificamos:

- Para mim é o não lugar. Busca constante por um lugar, não físico, mas próprio, em si mesmo. Sensação de incompletude.

- Para Fernando: equilíbrio, desequilíbrio. Diversidade de pessoas visíveis e invisíveis dos centros urbanos. Corpos instáveis.

Sugestão de criar uma instalação como se fosse um espaço por onde uma pessoa passou. Fernando sugere a princípio com objetos e Cecília sugere tentar estabelecer isso com um estado físico, talvez.

- No livro Post-it, o boxe está como tática de guerra. O lugar de trocar roupa está na queda do Muro de Berlim, com vários policiais assistindo a esse ato (espectador nos assiste).

Transitorialidade – passagem

Ocasionalidade

Cada espaço está sendo constantemente modificado.

Ideias dos animais – se comunicam no mesmo idioma, passam de um lugar a outro, sem preocuparem-se com fronteiras e sem precisar de documentos.

Para Ceci: identificação de espaços ocasionais.
Para produção de material propõe análise ativa: ler fazendo, descobrindo. Ver o que é e o que pode vir a ser. Comenta sobre Jogo do Fiadeiro: a primeira fala, a terceira reforça, a terceira confirma.

No período da tarde fomos à praia de Lagos para refrescar os pensamentos. Foi um momento relaxante e importante para nos percebermos de outros modos, nesses espaços ocasionais.

Vigésimo primeiro dia

Ceci conduzindo frases de movimento.

Experimentações:

- Manipulação com pessoa que recebe mais ativa

- "Espanhola", sendo que enquanto eu faço, vou gritando pra mim mesma: venga guapa, vamos, muy bien! Terminar com a entrada de uma música.

- Início: ideia de criar quatro pontos distintos, talvez com diferentes sofás e/ou cadeiras (o meu uma poltrona inflável) e luzes distintas (uma lanterna, um lustre de pé, etc). Mas deixarmos uma vazia. Diferentes camadas sociais e tentativa de adequar-se a elas (com a mesma combinação de movimentos).
Depois formar uma espécie de ringue de boxe, com os quatro ambientes. Uma em cada canto. E as saídas das pessoas se estabelece nesses espaços.

- Trabalhar com o texto da Ceci:

No es lo mismo
No son iguales

No es igual blanco y negro
Nos es lo mismo un hombre y mujer
No es lo mismo un africano y un brasileño
Nos es igual subir y bajar una escalera
No es lo mismo dar a vuelta al mundo y buscar un sítio en el mundo
No es igual mirar o ser observado
No es lo mismo soñar que vivir un sueño
No es igual un pasaporte verde que un pasaporte rojo
No es lo mismo salir que entrar
No es lo mismo estar de un lado y de otro
No es lo mismo levantar la mano para hablar o para golpear
No es lo mismo una línea que un límite
Nunca será lo mismo un espacio que otro
Un cuerpo es un cuerpo imposible de ser otro
Es diferente el precio, el sabor, hasta el olor
Nunca un hemiferio se tocará con otro
Nunca un blanco se convertirá y un negro

- Em duplas, caminhando abraçados. Uma pessoa cria um problema para caminhada. A outra precisa resolver o problema e continuar. Não é fugir, mas enfrentar e criar uma solução. Talvez usar isso, ao final das camisetas, quando eu e Fernando saímos em duplas.

- Ideia de passar a mão no outro, como se estivesse na polícia no aeroporto.
Os três encalacrados em um momento, como se quisessem encontrar espaço. Se realizado rápido, também dá a sensação de fazer muitas coisas ao mesmo tempo.

- Eu com Cecília no gesto dela, de girar e empurrar quadril pra frente e braços pra trás (que passa, tío?).

- Imagem de Madonna, cantando I’m singing in the rain. Com deslocamentos.

- Momento em que tentamos nos adequar ao espaço do outro, começo a coçar o nariz e Ceci começa a impedir até a totalidade.

- Roteiro para amanhã: Camisas, abraço, solo Ceci com duo Fernando e Ana (um que bloqueia caminhada e outro que sustenta), eu caio no chão com a espanhola, peitoral da Ceci e Fernando, termina com palma.

Vigésimo dia

Ceci conduzindo frases de movimento.

Pontos de experimentação

- Improvisação a partir das camisas que tiramos e pomos ininterruptamente


Definimos alguns pontos:

Fernando começa, depois Ceci entra, e depois eu. Fernando começa a fazer perguntas em português para que nós a respondamos em espanhol, enquanto nos movimentamos. Coincidimos alguns momentos de tirar e por a camisa juntos e também pequenos silêncios. Começamos a lançar as roupas no chão e a trocá-las aos poucos, até que experimentamos nos vestir uns com as roupas dos outros. Lançamos tudo ao centro e eu começo a lançar em alguém. Inicio o jogo. Fernando e Ceci continuam jogando entre si, enquanto eu vou pegando as roupas pra mim e me vestindo com elas (queimada). Quando pego todas, Ceci começa a se lançar sobre Fernando até que eu entro na frente e a pego. Dançamos, começo a abraçá-la, empurrá-la e prendê-la, enquanto respondo a perguntas do Fernando. Depois acumulo a função de ir tirando a roupa que pus. Às vezes deixo a Ceci por alguns momentos e retorno. Até que fico só com uma calça e uma blusa e largo a Ceci. Pego as roupas que joguei e as transformo em outras vestimentas. Saio com o Fernando, respondendo duas de suas questões.


- A que horas chegou?
- A que horas dormiu?
- A que horas levantou?
- Você me entende?
- Você sabe o que eu estou pensando?
Como não? Estou pensando em espanhol!
- Você sabe o que estou dizendo?
- Como não! Estou falando em espanhol!


- A que horas você sonhou?
- A que horas olhou o mundo?
- A que horas parou?



- Improvisação a partir da "espanhola", juntando com movimento de peso e fragmentação no chão, e cena de exercício peitoral da Ceci
- Mostrar o corpo pro outro, buscando visibilidade
- Uma pessoa sentada falando (descrevendo o que ocorre ou lançando outras coisas que tenham sentido com o tema geral da imigração, que sejam colocados de modo sutil). Outras pessoas passando por esta, dentro da expectativa de visibilidade também. Quem quiser troca com a pessoa que está sentada a qualquer momento.

Fixamos quatro idéias a partir dos últimos dois itens:

Interceptar (obstáculo)
Invadir o espaço do outro
Seguir o rastro do outro
Tentativa de encaixe (adaptar-se)

Décimo nono dia

Ceci conduzindo:

- manipulação em duplas (em pé, passar a mão pela pele na coluna, omoplatas, pernas, relação ísquios/calcanhares), direção da cabeça para o céu, e para o chão rolando, conexão cócxix / púbis até chegar de cócoras, com uma mão apoiando abaixo do crânio ir deitando.
Deitado: mãos, omoplatas, externo para clavículas, costelas para dentro e para baixo em direção à pélvis, costelas flutuantes para terra, cristas ilíacas na direção inversa (para costelas e terra). Pernas dobradas em direção ao peito e laterais. Perna de “pistoleiro” abertas com joelhos dobrados, deixa cair no chão. Omoplatas e braços. Cabeça. Daí enrola, busca uma perna e outra, agacha, desenrola.


Fizemos as fotos para divulgação e escrevemos o texto para divulgação.

Décimo oitavo dia

Cecília conduzindo frases de movimento.

Jogos:

- Jogos de “change”. Duas pessoas dentro, uma fora, dando o comando “change”. Dentre os comandos poderíamos falar transforma, al revés, rápido, lento, stop, repetir.

Colhemos alguns materiais daí, exploramos em duos, com um diretor. Depois nos pusemos a improvisar os 3 ao mesmo tempo, fazendo cada uma sua própria direção.

- Em duos, abraços com a Cecília de empurrar e puxar. Apoios na Cecília e ela fala cuidado e me solta.

- Caminhada pra frente cada um com um movimento contínuo, mas todos andando ao mesmo tempo na mesma direção (intencionalidade do movimento é a mesma).

Fernando conduzindo:

- manipulação em duplas (pele, ossos, musculatura)
- jogo das bolas
- diagonal de movimento, níveis baixo, médio e alto
- duas pessoas fora e uma dentro: uma com o comando de coisas concretas no espaço e outro com comandos de coisas subjetivas. Quem está dentro vai descartando o comando anterior a medida que chega um novo comando, a menos que a pessoa de fora peça para acumular.