segunda-feira, 27 de julho de 2009

Décimo sexto dia - parte I




Acordamos em Sevilha e aproveitamos o curto tempo que tínhamos para ir a Catedral. Antes um "desayuno": tostada con mantequilla y batido de chocolate con nata. Entre e perguntei como era o café: é completo ou escolhemos o que queremos? A garçonete respondeu, num tom um pouco ríspido e uma cara fechada: "pra mim tanto faz! Você resolve o que quer." Ok, eu pensei. Vamos reformular a questão: onde posso ver os preços? "Não tem como, não tenho menu." Ok, eu pensei. Vamos reformular a questão: Como você serve o chocolate? É batido frio ou é quente? "Depende, pode ser Cola Cao, posso bater ou pode ser quente. Ok, eu pensei. (E agora você deve estar pensando porque eu não fui embora... bem... fome e pressa). Vamos pedir... Ok, pedimos. Enquanto não vinha o farto café, fui tirar foto do cardápio num quadro de giz, que tinha uma bailarina flamenca desenhada. A garçonete falou: "Você tem que pagar os direitos autorais da artista." Daí claro, perguntei: "Você que desenhou?" E ela confirmou. Mostrei a foto pra ela. Falei: "Você tem que assinar a obra." Ela disse: "Mas eu assinei, só que os clientes apagaram os sapatos e a minha assinatura". Pois ela pegou um giz, foi até o quadro e voltou a desenhar os sapatos e a assinar o desenho. E ainda disse: "Tenho que colocar os cabelos debaixo do suvaco! Tiraram! Apagaram muito da minha boneca!" E os desenhou... Eu registrei o momento e mostrei pra ela. Pois veio o café: ufa! Finalmente... (pensei...) e junto veio um desenho de um bailarino flamenco, com o seguinte recado: Para que você se lembre de Sevilha. Tomamos o café, que estava delicioso. E seguimos caminho para a Catedral, não antes de receber um sorriso e uma indicação: leve o cartão do nosso bar, com o e-mail (para onde as fotos dela seguirão em breve...!).


Décimo quinto dia




O encerramento do curso foi maravilhoso. Ao final das atividades, mostramos o Butterfly para os participantes. Ficou um gostinho de quero mais, de ambas as partes, sabor que me agrada bastante. Saindo daí, correria total. Apenas uma hora para acabar de fazer as malas, fazer almoço, comer, descer com o lixo pra rua, fechar a casa e ir até a estação de trem. Os horários para Girona não são tão frequentes e não podíamos perder o horário. Chegando à Girona, poucas informações de horários de ônibus até o aeroporto, até que conseguimos encontrá-lo. No aeroporto... Ryanair, 15 quilos despachados por pessoa, 10 quilos na bolsa de mão e nada mais. Nós, com bagagem de 1 mês que ficaríamos fora, mais os livros e dvds que fomos acumulando no caminho... Resultado: ficamos uma hora pesando bagagens e trocando roupas e objetos de lugar até equilibrar os pesos... Ceci chegou e... mais troca, troca... até que conseguimos a façanha de adequar às bagagens. Eis que vamos rumo à Sevilla... lugares não marcados, ficamos longe uns dos outros (eu, Fernando, Ceci e Mo) e eu, claro, sentada do lado de um casal maluco que se estapeava e beijava ao mesmo tempo... nas horas vagas, me davam cotoveladas... hehehehe claro... toda novela mexicana (ou espanhol, seria, neste caso?) tem um terceiro elemento para testemunhar... E começam as vendas em inglês, espanhol e catalão. Desde (acreditem!) cigarros, até comida, cosméticos, bebidas... os comissários (ou seriam vendedores? ou garçons e garçonetes?) vendiam tudo... na verdade me parece que o comandante estava à venda em um pacote que incluía o co-piloto e algum (a) comissário (a) de bordo, mas perdi esse momento porque comprei um lexotan para me ausentar da feira livre onde tinha me metido, sem direito a dar uma saidinha para passear... quase nem mesmo posso ir ao banheiro, já que a Ryanair tem um projeto de cobrança de uso de toaletes... (quanto mais alto estiver o avião, mais caro é o uso - rsrsrsrsrsrs - Ai, ai, ai... o que fazer com minha incontinência urinária?) Pois bem... quando já estava quase comprando um balão de oxigênio que me introjetasse um pouco de paciência para que eu não destruisse a tripulação em poucos segundos, recebemos a notícia de que estávamos aterrisando em Sevilha, com exatos 34 graus celsius, às 22h... O Jorge e a Judith, amigos da Ceci, estavam nos esperando no aeroporto. As duas figuras raríssimas, simplesmente foram dormir em outro lugar e nos deixaram a casa deles para ficarmos à vontade. Inacreditável... a casa, mais parecia de bonecas. Ficava num conjunto meio comunitário, com arquitetura influenciada pela cultura árabe, bem no centro de Sevilha, pertinho da Catedral. Dentro da casa, um parque de diversões: fotos, objetos, desenhos, livros, tudo misturado e colorido... em cada lugar uma surpresa... Saímos para jantar num lugar delicioso... Jorge e Judith, um caso raro... pode ser que ainda seja efeito do lexotan...

Décimo quarto dia











Início do curso na Escola de Dança Municipal de Celrá. E lá vamos nós hablando español! Apesar da forte imigração que encontramos por aqui, com exceção da Ceci, que é argentina, as outras pessoas que fizeram o curso eram todas catalãs, o que tornou a atividade uma ótima oportunidade para compreendermos melhor como estão pensando e fazendo arte na Catalunya. O curso também foi muito rico pois reuniu pessoas de profissões distintas (bailarinos profissionais, professores da rede pública de ensino, psicólogos, etc). Foi ótimo verificar, uma vez mais, como o trabalho reverbera em todos, pela autonomia que propõe e pelo respeito às individualidades. O grupo, além de muito amável, estava completamente disponível e aberto ao que propusemos. Como seria um curso de apenas dez horas, decidimos compartilhar ferramentas e princípios de trabalho, para que eles pudessem, a posteriori, explorar esses recursos do modo como melhor se aplicasse às realidades de cada um.

sábado, 25 de julho de 2009

Uma tarde inesquecível ou Julyen Hamilton ou décimo terceiro dia


Há alguns momentos que confundem um pouco o sonho com a realidade. Pois foi assim... fomos buscar a Ceci na estação de trem e quando chegamos ouvimos um som de música na sala. Pensamos... será que Julyen já chegou? E lá estava... aquele senhor de um sorriso que não cabe no rosto, nos esperando com inestimáveis generosidade, vitalidade, beleza e sutileza. Cada palavra, cada gesto, cada olhar e um modo muito sensível de ver o mundo e as pessoas. Julyen nos fala sobre o ser humano, sobretudo sendo humano. Isso faz a diferença.
(Ao ganhar um presente dele, eu lhe disse gesticulando: estou envergonhada... /Ana... entendo sua vergonha, mas não me venha com estes dedos latino-americanos!!!! rsrsrsrsrs)
Foi assim... Dizia Julyen.... coragem vem de coração. Há de se ter coragem!
As quatro horas se estenderam a seis, sem que ninguém se desse conta de que o tempo passara.
Pôs seu chapéu, pegou sua bolsa, roupa clara e cinto e se foi...
Foi assim... passou, como um pestanejar, e nos deixou a coragem.
Foi assim... uma troca profissional e afetiva... intensa e profunda.

A construção deste novo espetáculo vai se fazendo de fragmentos tão únicos que se formam em um todo.

À noite, show de flamenco na Fábrica e um bom momento pra se divertir...

Décimo segundo dia ou Ventanas


Por las ventanas miro el mundo.
Por allí todo se mueve y está parado. Al mismo tiempo.
De donde ves ya no lo sabes sí es la realidad concreta o reflejada.
Los cuerpos dañados por el tiempo se hacen figuras de un álbum abandonado.
De la silla dibujada por el sol se crean espacios para el pensamiento.
Muñecas heridas o fragmentadas, mujeres arregladas o encantadas.
Miro las ventanas, capaces de ofrecerme, en vuelos, otras paisajes.
Por el mundo miro las ventanas.

(Ana Mundim)

Décimo primeiro dia ou Do lado de cá...


Aqui o sol dói na carne e atravessa-me a pele derretendo ao solo.

Me ponho desnuda em terra seca, envolta em cordas brancas que protegem-me dos espinhos.

Ali tenho a sensação de um tempo silenciado.

Observo os pássaros, sinto o vento quente que me preenche os poros, percebo a aspereza em mim e nada mais.

Ali, me parei e senti.

Tudo fazia tanto desconexo nexo em sua perfeição imperfeita que não me cabia mover ou falar.

Era pra ser a cena de um vídeo, mas foi uma experiência de vida.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

E na casa de três andares (só pra gente e o Toni), escolhemos a caminha do sótão (quase um quarto andar)


Ana, Fernando, Cecília - laboratórios
















"Ceruelas" deliciosas e docinhas para as raras horas vagas


Bruna e Nano - nossos amigos inseparáveis e companheiros de ensaios




L'Animal a l'esquena









O por do sol, a cada dia, um presente diferente...

Décimo dia

Voltamos para Celrá, demos uma entrevista para o L'Animal sobre o nosso trabalho e a residência que estamos fazendo aqui. Logo em seguida, eles filmaram o roteiro cênico que organizamos, enquanto o mostrávamos para o Toni Cots e para Maria Claudia Mejia (colombiana, aluna do Mestrado do L'Animal). Conversamos um pouco sobre o que eles haviam visto, sobre possíveis encaminhamentos a partir da perspectiva que eles trazem, e falamos sobre como procedemos com o levantamento de materiais e quais as perspectivas para nossa próxima residência em Faro e a construção de um novo espetáculo. Decidimos que, do material levantado, continuaremos desenvolvendo as cenas para uma nova criação do República. E, algo destes elementos, será pinçado para elaborarmos um outro espetáculo na residência com a Cecília Colacrai.
À noite fizemos imagens para o nosso novo videodança na fazenda e na rua.

Nono dia

Dia de repensar, refazer, recriar. Experenciamos questões pontuais levantadas pela Cecília. Trabalhamos um pouco a primeira cena do roteiro que fizemos, que está vinculada à questão do corpo em trânsito e dos idiomas que o compõem. Logo em seguida, revimos meu solo do banco, trabalhando diferentes dinâmicas.
A tarde seguimos para Barcelona. Novo encontro com Cecília para conversarmos sobre o trabalho e coleta de imagens nas ruas.

Oitavo dia

Hoje pela manhã retomamos o roteiro que temos dos materiais levantados na primeira semana. Logo pela tarde, recebemos a Ceci Colacrai para propor um trabalho técnico-criativo e assistir ao nosso roteiro. Logo brincou que já tínhamos um espetáculo pronto! Hehehehe um pouco de exagero, mas estamos animados com as cenas que estão surgindo... Ceci nos apontou vários elementos para trabalharmos e voltará no fim de semana para ver o que fizemos e contribuir com novas indicações.

Tempos que cruzam, corpos alertas, criação em tempo real, entendimento de outros caminhos para os mesmos conceitos, novos modos de organização, vivência encarnada, disponibilidade para doar e receber. E vamos ver o que mais vem por aí...

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Entre uma coisa e outra...

Conseguimos um tempo de respiro para encontrar Mercé Saumell, minha ex-orientadora, em Girona, cidade muito simpática a dez minutos daqui. Mercé é uma pessoa muito especial, a quem devo muitos dos bons momentos profissionais e pessoais que vivi e estou vivendo aqui. Ela é professora do Institut del Teatre e atual coordenadora das atividades culturais da mesma instituição. Foi um fim de tarde extremamente agradável, com muita conversa sobre teatro, dança e sobre a cultura catalã.

domingo, 19 de julho de 2009

Sétimo Dia

Dia de estudos teóricos

Leituras e releituras: Taz, Post-it city: ciudades ocasionales
Vídeos: Les deux voyages de Jacques Lecoq, Azul como uma laranja

Sexto dia


Trabalhamos pela manhã, retomando todos os materiais levantados durante a semana e tentando organizá-los dentro de um roteiro flexível, para que esta semana possamos fazer uma apresentação pública do trabalho.
A tarde fomos a Barcelona colher imagens em vídeo, buscar materiais bibliográficos na La Central na Laie e na FNAC e assistir ao STOMP. A cidade está fervendo (de calor e de gente). Muita informação, uma miscelânia de idiomas, sentidos, sabores, estéticas, atitudes... Almodóvar seriam pouco para o que vemos aqui. É um filme pronto sobre a diversidade e a pluralidade da vida. Inspirador. O espetáculo do STOMP é de tirar o fôlego. Entretenimento de alta qualidade, primor técnico e uma competência inigualável. Vale a pena assistir!

Quinto dia

Fizemos imagens em vídeo na área externa do L’Animal a l’esquena, que tinham como mote o diálogo do nosso corpo com os diferentes espaços que o lugar nos propõe. Nos pusemos a perceber o silêncio e os modos como o movimento interfere nele. Temos entendido que o silêncio não significa a falta de som, mas o momento de experiência, percepção, vivência, estado de atenção, concentração, permissão.

Quarto dia

Regra 3: saber realizar um trabalho de estátua viva

Terceiro dia

Regra 2: saber falar vários idiomas

Segundo dia

Após inúmeras improvisações, utilizando diferentes espaços do L’Animal a l’esquena, decidi propor um percurso de movimento em espaço restrito (quadrado de luz) com a música Bandolins, de Osvaldo Montenegro.
Conversamos muito sobre a condição dos imigrantes por aqui, em trabalhos de baixa remuneração, dividindo casas com inúmeras pessoas e, muitas vezes, sem tempo e dinheiro para usufruir dos benefícios que as cidades oferecem (questões culturais). Eles vêm em busca de um sonho, na perspectiva de levantar grana e voltar ao Brasil em uma situação melhor do que a que viviam lá anteriormente. Para mim, há uma rede de conflitos que se entrelaçam formando nós que parecem não serem capazes de se desatar mais. Conversei com imigrantes legais e ilegais em Lisboa e Barcelona. A maioria tem o desejo de retornar à terra natal, mas está imbricado nessa bola de neve sem prazo para sair, pois enviam dinheiro para as famílias no Brasil, e têm medo de voltar à vida em seu país e não conseguir mais se realocar aos hábitos, costumes, trabalhos e modo de vida. Aqui trabalham, muitas vezes, o dia todo, de domingo a domingo, com um dia de folga por semana. Não há perspectiva de vida. Às vezes vendem suas férias para não ficarem sem receber, pois dependendo da situação em que se encontram de regularização, não têm direito à remuneração se não trabalham (quase um sistema de autônomo) e, especialmente em Barcelona, o custo de vida é altíssimo.
Toda essa situação veio à tona no momento de experimentação de movimentos nesse espaço reduzido. A idéia de que ali há um mundo particular e infinito, mas que ao mesmo tempo se reduz e finaliza pela própria infinitude. O movimento corporal é crescente, marcado pela cabeça que se apresenta, quase que involuntariamente, em constante mover-se da direita para a esquerda. Há toda liberdade de movimento, com a restrição do espaço e do movimento da cabeça.
Com Fernando, trabalhamos a relação da coisificação do corpo. Começamos a brincar com algumas “regras para ser imigrante brasileiro”. Regra 1: saber sambar. A partir disso, realizamos improvisações.

Dia a dia

Temos organizado o dia a dia da seguinte maneira:

Manhã: trabalho corpóreo-vocal técnico-criativo
Tarde: trabalho corpóreo-vocal técnico-criativo, com ênfase no levantamento e retomada de materiais e na sua organização
Noite: Tempo para conversar entre nós e com o Toni Cots, ler, ver vídeos, pesquisar materiais na internet, escrever, tirar fotos, ver os materiais gravados e vídeo para encaminharmos o trabalho do dia seguinte.

Para quem quiser ler...

Encontramos um texto informativo sobre que nos trouxe algumas imagens para seguir a prática:
NOVAS TERRITORIALIDADES OU MULTIPLAS TERRITORIALIDADES? TRABALHADOR MIGRANTE BRASILEIRO EM BARCELONA
http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-270/sn-270-131.htm

Avalanche

Por aqui, avalanche de idéias, vontades, desejos. Caminhamos com o tempo, contra o tempo, em tempo. Decidimos realizar um recorte sobre a imigração dos brasileiros em Barcelona, fato que me chama atenção desde que morei seis meses por aqui.

Nosso cotidiano aqui é árduo, mas saboroso. Começamos a trabalhar às 9h30 e seguimos até 24h todos os dias. Na maioria das vezes, comemos por aqui mesmo. Há uma pequena cozinha dentro da própria sala, onde beliscamos frutas e outras coisinhas. Há uma árvore em frente do espaço de trabalho com ameixas deliciosas e Nano e Bruna, os dois cachorros da fazenda, nos acompanham com suas visitas. É um momento de descobertas, intensidade, reconhecimentos, crises, soluções, movimento, paralisia... tudo ao mesmo tempo, misturado, confundido, despejado.

Imersão

Estamos agora em plena atividade de imersão. Nestes dois dias de
Residência Artística já elaboramos um planejamento de trabalho e
iniciamos as atividades de pesquisas corporais. Optamos - pelo
incômodo e interesse - por trabalhar um recorte da temática da
imigração: a relação do corpo em trânsito cultural; o corpo sem lugar,
a afirmação proposital da diferença, não pelo respeito à diversidade,
mas pela distinção hierárquica.
Os primeiros estudos levantaram materiais corpóreos que resultaram
conflitos, tensões, fuga, fragmentação e interterritorialidades. E,
neste cenário de busca e poesia, seguimos em nosso processo de pesquisa e criação.

(Contribuição de Fernando)

Chegada a Celrá

E de trem, lá fomos de Barcelona a Celrá! O “pueblo” de 4.000 habitantes é, como diriam aqui, “ um sítio muy raro”. Em alguns momentos pensamos mesmo estar em uma cidade cenográfica (ou será fantasmagórica?). Aqui reina o catalão. Não se ouve quase ninguém falando espanhol. Há, sim, muita imigração, especialmente africana, mas mesmo os “niños” falam catalão, pois aprendem na escola. As ruas costumam estar bem desertas quase todo o dia e as casas mantêm suas janelas fechadas para evitar o calor de quase 30 graus. À noite, quando refresca, encontramos algumas pessoas caminhando pelas ruas ou conversando pelas praças.

O L’Animal fica numa área verde, próxima ao pueblo. Temos um carro disponível para fazer essa travessia. O espaço é uma “nave”, como eles chamam por aqui, alocada no meio de uma fazenda. Aqui só se ouvem os sons dos cachorros, dos pássaros e, eventualmente, recebemos a visita do Tobias (um ratinho de mato que, para meu desespero, insiste em ser bailarino). A sala tem equipamento de luz e som, objetos, enfim... absolutamente tudo que pensamos em precisar, está aqui. Tudo a tempo e a hora.

O primeiro dia foi para definirmos com mais clareza o tema sobre o qual trabalharíamos, reconhecer o espaço e a cidade.

Entre Barcelona e Celrá, um tempo para pensar

Penso.

Enquanto badalam os sinos da igreja, penso e páro.

Penso...

E me isento do mundo. Guardo-me em mim, dobrada ao revés.

Penso que às vezes penso.

Penso muito.

Penso do avesso.

Quase digo.

Penso o contrário.

Quase falo.

Mas logo penso.

Até que tento. Mas...

Interrompida...

Penso.

Em ré menor.

Penso.

E só.

Ana Mundim

Fernando, Ana, Marcos, Felipe e Salena


Fernando, Ana, Marcos, Teresa, Salena


Em Barcelona, os brasileiríssimos Fernando Prado, Vanilton Lakka, Fernando Aleixo e Ana Mundim


Em Barcelona, Andrea, Ceci Colacrai, Mo e Fernando


Barcelona

Dia 12 nos dirigimos a Barcelona, via TAP. Chegamos no novo terminal do aeroporto de Réus, que está belíssimo. Ao sair encontramos entusiasmada a Cecília Colacrai, argentina residente em Barcelona há sete anos, com quem vamos trabalhar em Faro, Portugal. Já começamos a conversar sobre as possibilidades criativas de nosso trabalho conjunto. Barcelona é sempre uma loucura, mas no verão é incrível. A quantidade de pessoas na cidade e a falta de estrutura para recebê-las era tão grande, que ficamos duas horas para sair do aeroporto e chegar no bairro de Grácia, via trem e metrô. Após uma primeira reunião para decidirmos questões administrativas da residência que faremos agora e da ida de Cecília ao Brasil, fomos jantar em um restaurante onde encontramos Mo, marido de Cecília.

De lá seguimos para o CCCB para acompanhar a programação do evento Dias de Danza e para reencontrar os amigos Marcos (videomaker) e Teresa (produtora cultural), e Salena e Felipe (instrutores de Breema). Impressionante ver a grande quantidade de pessoas assistindo dança contemporânea! Pra terem uma idéia, nós só conseguimos assistir os espetáculos por telão. O sucesso do evento é resultado de uma luta de anos, construção lenta, continuada e efetiva, que merece ser admirada e pensada como exemplo. No Brasil há alguns eventos vinculados a este, nas cidades de Belo Horizonte, São Paulo, Brasília, entre outras, caminhando de modo interessante. É claro que devemos respeitar os diferentes contextos e entender a educação espanhola se faz na e com a cultura das artes inseridas no cotidiano da população, o que é determinante no modo como se instituem o pensamento e os interesses deste povo. Além disso, é importante saber que propostas como estas não são parte de um intensivo isolado de atividades, mas, do contrário, se fazem eficazes porque complementa um todo maior, que promove, como obrigação do estado, o contato freqüente com os bens simbólicos.

Ao terminar o evento, encontramos os colegas Vanilton Lakka e Fernando Prado, de Uberlândia, que tinham ido participar do evento. Uma pequena saída para confraternização e um brinde ao reencontro! E vamos nós, que no outro dia, começaria um trabalho intenso.

Nazaré


Alcobaça


Óbidos
















Tramossos e ginja em Óbidos




Óbidos – Alcobaça – Nazaré – Mafra


Hoje alugamos um carro. Começamos nosso dia passeando em Óbidos. A cidade, cercada por muralhas, apresenta beleza peculiar entranhada por uma grande influência dos históricos reinados portugueses (para quem quiser saber um pouco mais da história da cidade: http://www.obidos.pt).


Ali conhecemos o tramosso e a ginja. Mas vejam... segundo a senhora da feira, já que é pra aprender, aprenda a falar certo (leia-se: fale português, não brasileiro! Hehehehe): trrrrrrãmosso. É uma semente bem salgada, também de acordo com ela, pra tomar com cerveja. A ginja lembra o sabor de licor. Muito doce, mas deliciosa. A senhora que nos deu ginja para provar é dona de uma loja na cidade. Seu pai houvera aberto a loja como tecelão há anos, onde trabalhava com sua esposa e a outra filha, mas perdeu a vista e parou de trabalhar. As máquinas que tinham ali foram doadas para o município, visando abrir uma escola de artesãos e dar continuidade à cultura local. Esta senhora, natural de Óbidos, nos disse que já havia morado em Lisboa e em Luanda. E que não se acostumava com o retorno a Óbidos. Considera a cidade linda, mas diz viver de casa para o trabalho e vice-versa, sem perspectiva de mudança (ela mora em cima da loja). Nos disse que Luanda, embora paupérrima, tem uma vivacidade incrível e que na Europa é tudo muito certinho, no lugar, sem movimento. Disse ter trocado a vida colorida pela vida preto e branco e nos mostrou que sua fuga era a coleção de CDs com músicas latinas e africanas. Falou que quando não há clientes na loja ela e seus dois funcionários ficam dançando para animarem suas vidas. Na mesma loja, vi uma caixa de música do balé Quebra-Nozes. Ano passado, no Natal, Óbidos utilizou o Quebra-Nozes como mote para suas festividades e essa senhora comprou a caixinha de música, que troca de cenários e músicas três vezes, para enfeitar sua loja. Fez questão de colocar para que eu visse. Um bom tempo investido em uma conversa muito agradável.
Saindo de lá fomos a Nazaré, com uma parada em Alcobaça para uma caminhada na cidade e um bacalhauzinho no almoço.

Em Nazaré, cidade litorânea, encontramos um fim de tarde incrível, acompanhado por um belo por do sol brindado com o vôo de algumas gaivotas. A praia é muito bonita, com água gélida, porém transparente. Há um elevador que nos leva até o alto da cidade, onde é possível ter uma visão ampla da praia e dos prédios que compõem a arquitetura do local. Experiência sempre inigualável é ficar a beira mar à noite, ouvindo o som do mar e silenciando o pensamento. Sentir o cheiro de maresia e o vento no rosto são poesia para a vida.

Para o trabalho, fizemos algumas imagens em vídeo nas muralhas de Óbidos e na praia em Nazaré. Esperamos utilizá-las em breve para um novo videodança.

Para fechar o dia, (nessas alturas, já de madrugada), uma breve passada em Mafra para uma caminhada no centro. E, na volta a Lisboa, uma voltinha em Belém. No percurso, passando pelo Chiado, encontramos a população jovem toda na rua, indo e voltando dos bares e baladas e também sentados na grama das praças, simplesmente para conversar. Os portugueses são impressionantemente bonitos e simpáticos. Passeando por aqui, quase esquecemos nossa condição de colonizados, até olharmos a volta e percebermos que a maioria dos trabalhos mal remunerados por aqui é realizado por brasileiros. De todo modo, para quem não conhece, vale a pena por na lista de viagens.

Ericeira




Ericeira

Nosso segundo dia de viagem começou com uma viagem a Ericeira. Esta pequena vila é curiosa por sua arquitetura e suas minúsculas praias. O interessante é que cada prainha tem um público diferente. Uma é freqüentada por famílias. Outra por senhores. Outra por jovens. E entre elas, há um local de pescadores. Ali é tudo tão limpo e claro que parece mesmo que estamos em uma cidade encantada. Apelidamos a cidade de legolândia incolor. Mas, apesar da monotonia das cores, o lugar é muito gostoso. Vale a pena conferir.

Lisboa





























Lisboa